No finalzinho do mês da mulher, uma crônica sobre os desafios e a doçura inesperada da maternidade, que não anulam as tempestades na vida de uma mulher. Um testemunho discreto da força silenciosa da vida.
Durante o primeiro ano da minha filha, uma pergunta sempre chegava aos meus ouvidos: como é ser mãe? E eu, que nunca fui de floreios, respondia com franqueza: é difícil, extremamente cansativo, e estou prestes a ficar louca! As reações a seguir, embora diferentes, brotavam do espanto. Uns riam sem graça, outros questionavam para aconselhar, algumas mulheres aproveitavam para exibir, orgulhosas, sua passagem triunfante pelo maternar. E não as culpo, afinal, este tipo de resposta foge do esperado: “foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.” A minha resposta era, na verdade, o retrato de um dos estios da minha vida.
Não existe maternidade fácil! E, no meu caso, foram tantas tempestades de areia, que não pude contemplar o caminho. Não aproveitei a gravidez e tampouco o primeiro ano da minha primogênita.
Estava e ainda estou atravessando um dos desertos da minha vida. Tive um puerpério traumático. Lutei arduamente, por noventa dias, para conseguir amamentar minha bebê, sem êxito; perdi para o meu corpo, esgotado da gestação conturbada e pelas adversidades emocionais. Redemoinhos de frustração e impotência me acompanharam por muitos dias. Estava doente física e mentalmente. Três mudanças de casa, em meio a problemas financeiros. Dormia apenas duas horas por noite, durante longos meses. Um casamento fragilizado, que feneceu diante do terreno árido em que se encontrava. Mês após mês, meu coração foi se enchendo: primeiro, de amargura, para, em seguida, ser envolto por uma profunda solidão, até chegar a um estado de vazio. Nada a sentir. E uma vontade imensa de d-e-s-a-p-a-r-e-c-e-r. O impacto foi tão forte, que não consigo me lembrar com clareza do rosto da minha filha nos seus primeiros meses de vida. Para mim, a vida daquele primeiro ano se apresenta em meio a borrões, vultos de areia.
Todavia, pequenos e sublimes sinais surgem, como as chuvas sertanejas no mês de agosto: quando mergulho meu nariz em seus cabelos; quando vejo seu sorriso banguela, quando sinto seus pequenos pés na minha pele, quando escuto o seu bebenês. Nesses instantes, começo a entrever o oásis no caminho pelo deserto.
Então, hoje, se as mesmas pessoas me perguntassem novamente o que é ser mãe, eu teria uma resposta mais elaborada, embora longe de ser a idealizada.
A vida de Hadassa é um milagre, a certeza de que o Grandioso Criador realmente existe. Ela foi gerada em um ambiente uterino difícil, e, ainda assim, nasceu saudável, forte, com uma vontade de viver que jamais vi em toda a minha vida.
A maternidade, para mim, é um espelho de altíssima nitidez. Me aponta quem eu realmente sou e quem eu preciso deixar de ser. Também é uma convocação para a mudança, a desenvolver uma força suficiente para morrer, e sobretudo viver para o outro. E, muitas vezes, esse viver também é um chamado para negar a mim mesma.
E eis o sobrenome da maternidade: abnegação. Agir em prol do outro, apesar do que se sente. Vontade, cansaço, doença, sentimentos, desconforto. Os planos pessoais precisam estar em suspensão. O primeiro e último pensamento não nos pertencem mais. Cuidar, mesmo quando estamos doentes.
Entretanto, quando contemplo minha filha, e ela me retorna com os olhos mais brilhantes, penetrantes e hipnotizantes que eu já vi, sinto o terreiro do meu peito invadido por uma satisfação profunda, como um vento de arribação no fim da seca. E, sempre nesse instante, me preenche a certeza de que, por ela, tudo vale a pena. Por ela, me sinto capaz de passar por tudo de novo. E de novo. E de novo. E de novo.
A maternidade, para mim, é estranha. Repleta de contrários coexistindo, como o deserto que abraça o oásis. E poderosa, pois, através dela, posso ter um pequeno vislumbre de como Deus cuida de nós. Maternar, então, é conhecer as nuances de um verdadeiro amor.
Ainda estou aqui, aprendendo a ser mãe. Um aprendizado que levarei a vida toda para concluir (e há fim? Eu me pergunto). Tenho consciência de que estou muito aquém de ser uma excelente mãe. Mas, graças a Deus, tenho Hadassa. Não digo que ela é a minha única razão de viver, seria injusto colocar sobre seus pequenos ombros uma responsabilidade tão grande. Mas ela é o perfume dos meus dias. Um lembrete constante de que coisas boas ainda acontecem, apesar de tudo.
Um dia, ela seguirá seu próprio caminho, longe de mim. As lembranças desse primeiro ano a deixarão. Permanecerão apenas comigo, algumas registradas em fotografias e vídeos, outras guardadas na memória.
Eis uma das frustrações da maternidade: não poder manobrar a linha do tempo, e congelar alguns momentos.
De uma coisa tenho certeza: meu coração sempre será dela. E, de alguma forma – que só consigo sentir, mas não consigo explicar – meu coração sempre estará com ela. E este é o oásis no meio do meu deserto.
Picos-PI, 26 de Março de 2026.
Raquel Mariana S. Nascimento
